Enquanto o mundo se prepara para um futuro de clima extremo, o Brasil enfrenta uma dupla ameaça: o avanço do oceano sobre suas cidades e o calor sufocante que coloca em risco a vida dos mais vulneráveis. A pergunta que fica é: nosso sistema de saúde está pronto?
O ano é 2100. O mapa do mundo que conhecemos pode estar irreconhecível. Países-ilha, como as Maldivas, podem ter desaparecido sob as ondas. Megacidades como Jacarta já estão parcialmente submersas revela o Live Science. Para o Brasil, a pergunta não é se seremos afetados, mas como e com que intensidade. A ciência já traçou um cenário preocupante: o nível do mar na costa brasileira está subindo, e as ondas de calor estão se tornando mais frequentes e mortais. Este não é um problema distante; é uma realidade que exige ação imediata e uma profunda adaptação do nosso sistema de saúde.
Diferente de uma nação insular que pode ser engolida pelo oceano, o desafio brasileiro é mais sutil, mas igualmente devastador. Vivemos em um país onde a desigualdade social é a norma, e a crise climática atua como um multiplicador de vulnerabilidades .
Dados da FAPESP indicam que, em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, o nível médio do mar já sobe a uma taxa de 1,8 mm a 4,2 mm por ano desde a década de 1950 . Parece pouco, mas as consequências são imensas. Com 60% da população vivendo no litoral, o impacto é direto. A elevação do mar não significa apenas um "recuo da linha de praia", mas também a intrusão salina em aquíferos, contaminando fontes de água doce e danificando ecossistemas .
A pesquisa "Oceano sem Mistérios" revela que 90% dos brasileiros reconhecem essa ameaça e 87,6% estão dispostos a mudar seus hábitos para proteger o oceano, um salto de 5,4% em relação a 2022 . Essa conscientização é um passo crucial. No entanto, a disposição para agir ainda não se traduz em ação prática, com apenas 7% da população participando de atividades de conservação marinha no último ano . Isso mostra que a informação e a vontade existem, mas falta a ponte para a atuação efetiva.
Se o mar avança silenciosamente, o calor chega com força avassaladora. Ondas de calor, com temperaturas acima de 40°C em várias regiões, já são uma realidade no Brasil, conforme alerta o Ministério da Saúde . Estes eventos são particularmente perigosos em centros urbanos, onde o efeito de "ilha de calor" amplifica os termômetros, especialmente para os mais vulneráveis .
O impacto na saúde é direto e imediato:
Desidratação e Insolação: Problemas agudos que podem evoluir para o golpe de calor, uma emergência médica fatal .
Agravamento de Doenças Crônicas: Pessoas com hipertensão, doenças cardíacas e respiratórias veem suas condições se agravarem com o estresse térmico .
Saúde Mental: O calor extremo também está ligado ao agravamento de quadros de ansiedade e depressão .
A crise climática no Brasil não é democrática. Ela atinge com muito mais força aqueles que já são historicamente vulnerabilizados. É o que os especialistas chamam de injustiça climática .
Populações Periféricas: Moradores de favelas e periferias, em áreas de risco, muitas vezes já sofrem com a falta de infraestrutura, como saneamento básico. As inundações e o calor extremo encontram nessas comunidades um terreno fértil para a proliferação de doenças infecciosas e para o agravamento de problemas de saúde . A falta de acesso a serviços de saúde de qualidade amplifica os danos .
Povos da Amazônia: Na região amazônica, o impacto é particularmente severo. Um inquérito mostrou que 74,8% dos moradores da região já foram diretamente afetados pelas mudanças climáticas, e 82,4% acreditam que o aquecimento global influencia o aumento da temperatura . As queimadas, que se intensificam com o aquecimento das águas oceânicas, agravam as condições de saúde de indígenas, quilombolas e ribeirinhos, expostos a uma fumaça nociva e à perda de seus meios de subsistência .
O Brasil não está parado. O país lançou o Plano de Ação em Saúde de Belém durante a COP30, o primeiro documento internacional de adaptação climática dedicado à saúde . Este plano, que já conta com a adesão de mais de 80 países, visa fortalecer a resiliência do sistema de saúde às mudanças do clima .
As três linhas de ação do plano são:
Vigilância e Monitoramento: Para antecipar e responder a emergências de saúde relacionadas ao clima.
Políticas baseadas em evidências: Para fortalecer a capacidade do SUS de lidar com eventos extremos.
Inovação e Saúde Digital: Para criar soluções ágeis e baseadas em dados.
A iniciativa é ambiciosa e já conta com um investimento inicial de US$ 300 milhões de uma coalizão de financiadores filantrópicos para acelerar soluções .
Proteger-se do calor extremo é um ato de cuidado com a saúde. O Ministério da Saúde e outros especialistas recomendam:
Hidrate-se: Beba água regularmente, mesmo sem sentir sede. Evite bebidas alcoólicas e com cafeína, que podem aumentar a desidratação.
Vista-se Adequadamente: Use roupas leves, de cores claras e tecidos que permitam a transpiração.
Evite Horários de Pico: Planeje atividades ao ar livre para o início da manhã ou final da tarde.
Mantenha Ambientes Frescos: Use ventiladores ou ar-condicionado. Em caso de necessidade, procure locais frescos como shoppings ou centros comunitários, que servem como "refúgios de calor".
Cuide dos Mais Vulneráveis: Dê atenção especial a idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas. Ofereça líquidos constantemente e certifique-se de que estejam em ambientes frescos.
Alimente-se Leve: Dê preferência a frutas, saladas e comidas leves, evitando refeições pesadas que exigem mais energia para digestão .
Fique atento aos sinais do corpo: transpiração excessiva, fraqueza, tontura, náuseas e dor de cabeça são alertas para procurar ajuda médica .
Opinião do Editor:
Este artigo foi revisado pelo Dr. Christovam Barcellos, pesquisador da Fiocruz e referência em saúde pública e mudanças climáticas. Sua pesquisa enfatiza que a crise climática é, antes de tudo, uma crise de injustiça social, cujos maiores impactos recaem sobre as populações periféricas e vulneráveis . A adaptação, portanto, deve focar na redução das desigualdades para que seja efetiva e justa.
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