Crescem relatos de pancreatite entre usuários de canetas emagrecedoras
Nos últimos anos, as chamadas “canetas emagrecedoras” se tornaram um dos produtos mais desejados por quem busca perder peso rapidamente. Promovidas nas redes sociais, recomendadas por influenciadores e disputadas em farmácias, essas injeções ganharam fama de solução moderna contra a obesidade.
Mas por trás da promessa de resultados rápidos, um alerta silencioso começa a ganhar força.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) confirmou recentemente o registro de seis mortes suspeitas associadas a casos de pancreatite em usuários desses medicamentos. Além disso, já são 225 notificações de eventos adversos acumuladas em sistemas oficiais e pesquisas clínicas, com crescimento expressivo em 2025.
Os números não podem ser ignorados.
As chamadas canetas pertencem à classe dos agonistas do GLP-1, um hormônio que atua no controle da glicose e do apetite. Elas foram desenvolvidas originalmente para tratar:
Diabetes tipo 2
Obesidade
Resistência à insulina
Entre os principais medicamentos estão:
Semaglutida
Tirzepatida
Dulaglutida
Lixisenatida
Essas substâncias reduzem a fome, retardam o esvaziamento do estômago e aumentam a sensação de saciedade. O resultado costuma ser uma perda de peso significativa — principalmente nos primeiros meses.
O problema surge quando o uso deixa de ser médico e passa a ser estético.
A pancreatite é uma inflamação grave do pâncreas, órgão responsável pela produção de enzimas digestivas e insulina.
Em casos severos, pode provocar:
Dor abdominal intensa
Vômitos persistentes
Infecção generalizada
Falência de órgãos
Risco de morte
Embora o risco já esteja descrito nas bulas, o crescimento dos casos sugere que o problema pode estar sendo subestimado.
Segundo especialistas em farmacovigilância, o aumento da procura e do uso indiscriminado amplia a exposição da população a efeitos adversos graves.
Três fatores principais ajudam a explicar esse crescimento:
O medicamento deixou de ser visto como tratamento médico e passou a ser tratado como “produto de emagrecimento”.
Muitos usuários iniciam o uso sem avaliação clínica, exames ou acompanhamento profissional.
A cultura da magreza rápida impulsiona decisões impulsivas, mesmo com riscos à saúde.
Em muitos casos, as pessoas não têm indicação formal para usar esses medicamentos.
A Anvisa alerta que parte significativa dos eventos adversos está associada ao uso:
Sem prescrição
Em dosagens inadequadas
Sem exames prévios
Por tempo prolongado
Com produtos de origem duvidosa
Além disso, cresce o comércio ilegal pela internet, com medicamentos falsificados ou sem registro sanitário.
Esses produtos podem conter dosagens erradas, substâncias desconhecidas ou contaminações.
O risco é imprevisível.
Endocrinologistas e clínicos são unânimes:
“Esses medicamentos são eficazes, mas não são inofensivos. Precisam ser usados com critério, monitoramento e responsabilidade.”
O tratamento ideal exige:
Avaliação metabólica
Histórico clínico detalhado
Monitoramento periódico
Ajustes individualizados
Sem isso, o risco supera o benefício.
Usuários desses medicamentos devem procurar atendimento imediato se apresentarem:
Dor abdominal intensa
Náuseas persistentes
Vômitos frequentes
Febre
Mal-estar severo
Ignorar esses sintomas pode ser fatal.
O cenário atual exige ação conjunta:
Devem evitar soluções rápidas e buscar orientação médica.
Precisam reforçar critérios rigorosos de prescrição.
Devem ampliar fiscalização e campanhas educativas.
Precisam conter a desinformação.
A saúde não pode ser substituída por tendências.
Casos semelhantes já foram registrados na Europa e em outros países, levando agências reguladoras a reforçar protocolos de segurança.
O Brasil segue a mesma tendência global: mais acesso, mais uso — e mais riscos.
As canetas emagrecedoras representam um avanço importante na medicina moderna. Para muitos pacientes, elas mudaram vidas.
Mas o uso irresponsável transforma um tratamento em ameaça.
Os dados da Anvisa são um alerta claro: não existe milagre sem consequência.
Emagrecer com saúde exige tempo, acompanhamento e consciência.
Atalhos podem cobrar um preço alto demais.